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Quantos géis deves tomar numa maratona? A matemática, não o marketing

Corredor a abrir uma saqueta de gel energético
Photo by John Fornander on Unsplash

A resposta honesta é: mais do que provavelmente tomas. A maioria dos maratonistas amadores entra na partida com quatro géis no cinto e termina a prova a perguntar-se porque é que o km 35 lhes correu de feição. O problema não são os géis. É a quantidade.

A alimentação na maratona é uma das poucas partes do dia da prova que se resume a aritmética. Consegues fazer as contas atrás do dorsal. A razão pela qual fica confuso é que a indústria da corrida vende sobretudo géis pela sensação — “para o treino longo”, “combustível do dia da prova” — e não pelo número que realmente importa, que são gramas de hidratos de carbono por hora.

Por isso aqui está a matemática, sem amaciar pelo marketing.

A fórmula

Para qualquer maratona, a tua conta de géis é:

Géis = (hidratos/hora alvo × tempo final em horas) ÷ hidratos por gel

É isto. Três variáveis. Duas controlas tu, uma é uma propriedade do gel que compraste.

O número que tramoia os corredores é o primeiro — hidratos por hora. A estrutura do Running Momma modela a ingestão de hidratos numa escala de 30–120 g/h, ancorada no peso corporal, na intensidade e no quão treinado está o teu intestino para absorver hidratos durante o exercício. A explicação completa está na página da ciência, mas a versão curta é:

A maioria dos maratonistas está no meio, sabendo-o ou não. Andam a correr há anos, comem qualquer coisa nos treinos longos e nunca testaram o teto. Conta com 60 g/h como alvo de trabalho.

Fazer as contas a um corredor real

Pega num corredor que termina em 4 horas certas a 60 g/h:

Dez géis. Não quatro.

Se este número te embrulha o estômago, não estás sozinho, e é exatamente esse o problema. O corredor que enfiou quatro géis no cinto estava a alimentar-se a cerca de 24 g/h — abaixo do mínimo do intervalo recomendado. As pernas ficaram sem hidratos algures pelo km 29 e ele passou os últimos 13 km a negociar com o glicogénio que já não tinha.

Aplica a mesma fórmula a um maratonista de 3:15 a 80 g/h:

Quanto mais rápido vais, maior é a taxa de hidratos tolerável (porque treinaste para isso, não porque é grátis), e a mesma matemática mantém-se. A carga total de hidratos não se mexe muito num intervalo entre 2:30 e 4:30, porque os corredores mais rápidos acabam antes mas queimam a um ritmo maior. O que muda é a concentração do gel — e é aí que a escolha do produto começa a contar.

Porque é que a formulação do gel importa

Até aos cerca de 60 g/h, um gel de hidrato único (só glicose ou maltodextrina) faz o trabalho. Acima disso bates no teto de absorção do transportador SGLT1 — a porta molecular que puxa a glicose através da parede do intestino. Mete mais glicose para dentro e fica parada, a puxar água, a dar-te náuseas.

A solução são as formulações de duplo transportador: um rácio de glicose para frutose (normalmente entre 0,8:1 e 2:1) que ativa um segundo transportador, o GLUT5, em paralelo. Jeukendrup (2014) mostrou que esta combinação permite a atletas treinados oxidar hidratos a taxas próximas dos 90 g/h, com um teto duro à volta dos 120 g/h.

Em termos práticos: se o teu alvo está acima dos 60 g/h, o rótulo tem de dizer “maltodextrina e frutose” ou listar um rácio de hidratos. Se só diz maltodextrina, vais bater num muro.

Aqui estão quatro géis que cobrem o intervalo que o calculador do Running Momma costuma recomendar, com aquilo em que cada um é melhor:

Maurten Gel 100 ($$) → — 25 g em hidrogel, 0,8:1 glicose para frutose. Suave para o estômago. Bom quando estás a empilhar géis a curta distância um do outro e a tolerância intestinal é o teu limite.

Neversecond C30 ($) → — 30 g por gel, rácio 1:0,8, formulação assente em ciência. Provavelmente a melhor opção em hidratos por euro para alimentação de volume.

SiS GO Isotonic ($) → — 22 g, isotónico, por isso não precisas de empurrar com água. Útil quando os abastecimentos de água são pouco fiáveis.

Precision PF30 ($$) → — 30 g, rácio 1:0,8, lista de ingredientes limpa. Recurso de eleição para corredores que perseguem 80+ g/h sem quererem tomar um gel a cada quinze minutos.

Se não tens a certeza de qual escolher para o dia da prova, o post 2 desta série — uma comparação direta de géis — passa pelas escolhas marca a marca.

Como é o espaçamento na prática

Dez géis em quatro horas não é “um a cada meia hora”. É mais ou menos um a cada 22 minutos, porque não tomas gel ao minuto zero e os últimos 20 minutos da prova costumam ser rápidos o suficiente para que acrescentar combustível não traga nada. O calculador de alimentação do Running Momma faz este arredondamento por ti — resolve para uma cadência limpa de aviso do relógio (tipicamente 15–35 minutos) que se traduz em doses inteiras do gel que escolheste, para não estares a tentar tomar 0,7 de um Maurten no km 30.

A graça da cadência é que o dia da prova não é altura para fazer contas de cabeça. Queres um bip, um gel, água, e voltar a correr.

O hábito de subalimentar

Os maratonistas que enfiam quatro géis chegaram lá geralmente por um de dois caminhos:

Um: leram um artigo de “top 5 dicas” em 2014 que dizia “um gel a cada 45 minutos” e nunca atualizaram a regra. Essa regra foi escrita quando o consenso para a taxa de hidratos por hora andava à volta dos 30 g/h. O número mais ou menos duplicou desde então.

Dois: experimentaram mais e ficaram enjoados e decidiram que “o estômago não aguenta”. Isto é quase sempre um problema de treino do intestino e não um limite fisiológico duro. Burke et al. (2018) é a referência padrão sobre o tema — a tolerância intestinal é treinável, da mesma forma que a forma física é treinável, e o treino é só isto: praticar comer durante treinos longos a uma taxa mais alta do que confortável, repetidamente, durante semanas.

Um treino longo é o sítio onde se testa 60–80 g/h, não o dia da prova. Se chegares à linha de partida tendo tomado apenas dois géis num treino de 32 km, nenhuma matemática te salva do intestino que realmente tens.

Um plano razoável para a tua próxima maratona

Se não fazes ideia de onde te situas, aqui está um ponto de partida honesto:

Os números exatos afinam-se pelo peso corporal, pela temperatura no dia da prova e pelas tuas perdas de sódio — o calculador de alimentação na app trata de tudo isso. Mas mesmo a versão grosseira da matemática deixa-te mais perto do correto do que aquilo que a maioria dos corredores realmente leva.

Quantos géis estás a tomar neste momento no teu último treino longo antes da prova? Se a resposta for menos do que a matemática te dá, encontraste a alavanca.


Esta orientação é informativa e baseia-se em intervalos publicados para atletas de resistência adultos saudáveis. Se tens uma condição metabólica, cardiovascular ou gastrointestinal que afete a forma como absorves hidratos de carbono ou líquidos, fala com um médico antes de mudares a tua alimentação de prova.

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